terça-feira, 25 de maio de 2010

HISTÓRIAS DA CAROCHINHA


Sergio Ribeiro diz:


«1.  O défice e a dívida. Mas qual dívida? Diz o FMI (conhecem?): “A questão em Portugal prende-se com a dívida privada. Estimativas apontam actualmente para uma dívida total do País de 233% do PIB, 74% do sector público e 159% do sector privado”!

2.  Houve tempo em que o Estado se serviu do sector privado para conseguir crédito externo; hoje, o sector privado serve-se do Estado para conseguir crédito externo... que os cidadãos terão de pagar com os cortes nos salários e subsídios de desemprego e pensões, com o IVA, o IRS e o mais que inventarem, e sempre carregando mais nos de menores rendimentos.

3.  Os bancos nacionais (?) pedem emprestado no exterior para emprestarem no interior, é esse o seu negócio… e nós que paguemos a dívida pública.

4.  Fala-se de poupança mas incita-se ao consumo, paga-se cada vez menos de salários mas a ostentação convidando à imitação é cada vez mais escandalosa. De produção, de aproveitamento de recursos nossos, não se fala...»

A história que o Sócrates Coelho nos conta é... muito mal contada!

domingo, 23 de maio de 2010

O MUNDO PULA E AVANÇA

Antero Valério, no seu melhor!
AQUI.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

TEXTOS QUE NÃO DEVEM FICAR ESQUECIDOS - FÁTIMA

Carta aberta do pe. Mário aos seus irmãos Bispos


Fátima 1917-2007: 90 anos de Mentira,

a mais cruel, e de crime, o mais horrendo

Meus irmãos Bispos

1. Completam-se, agora, como sabeis, 90 anos (1917-2007) sobre a grosseira mentira, posta a circular em 1917 no nosso país acerca dumas pseudo aparições de nossa senhora, sempre ao dia 13 de cada mês e durante seis meses consecutivos, de Maio a Outubro, a três crianças da freguesia de Fátima. Uma mentira que alguns párocos de Ourém e arredores logo habilmente aproveitaram (se é que não foram eles próprios os seus inventores, como tudo leva a crer que sim) e, depois, tudo fizeram para que ela fosse acolhida e interiorizada pelas populações católicas como a maior das verdades. Este crime sem perdão, que também perfaz um pecado contra o Espírito Santo viria a ser publicamente corroborado e apoiado, não muito tempo depois, por alguns bispos residenciais do país, nomeadamente, de Lisboa, Évora, Beja, Faro, Coimbra, Braga, Angra, Funchal e até do Porto, numa operação concertada, com tudo de maquiavélico e de perverso. Aliás, a diocese do Porto até cedeu um dos seus padres cónegos para 1.º Bispo residencial da Diocese de Leiria, restaurada, poucos meses depois (e não se diga que foi mera coincidência!). D. José Alves Correia viria a revelar-se como a principal peça-chave na consolidação definitiva de toda esta ignomínia.

2. A grosseira mentira teve, por isso, desde a primeira hora, pés para andar, até porque, além do mais, as populações católicas do país eram na altura (infelizmente, ainda hoje são!) populações esmagadoramente analfabetas em teologia jesuânica e viviam, por aqueles dias, visivelmente desorientadas e em pânico, devido à recente implantação da República e às drásticas medidas que aquela não se inibiu de tomar, e bem, contra os seculares e até então intocáveis privilégios do clero e da Igreja católica romana em Portugal.

Por outro lado, eram também populações completamente aterrorizadas por catequeses e pregações terroristas, proferidas noite dentro ou antes do nascer do sol, à luz fantasmagórica de velas (não havia luz eléctrica), proferidas do alto dos púlpitos paroquiais pelos padres da chamada Santa Missão, todas elas inspiradas no mais terrorista dos livros portugueses do século XIX que dá pelo nome de Missão Abreviada, escrito por um padre português, de seu nome Manoel Couto, ele próprio um perturbado e aterrorizado capelão de freiras em Chaves que via demónios em todo o lado, pecados mortais em todas as acções dos seres humanos, mesmo as mais inocentes, como dançar, namorar, abraçar e beijar, e horrendos castigos de Deus concretizados em insuportáveis labaredas do inferno que torturavam e faziam ganir como cães raivosos, dia e noite e por toda a eternidade, as almas dos pobres pecadores condenados, praticamente todas as pessoas até então falecidas (basta ver que, no dizer dessas terroristas catequeses e pregações, era mais fácil encontrar um corvo branco do que salvar-se uma alma!!!).

3. Digo-vos aqui publicamente, meus irmãos Bispos, e sem que a voz e a mão me tremam: São 90 anos de mentira, a mais grosseira e a mais cruel. E 90 anos de crime, o mais blasfemo e o mais horrendo, porque os seus mentores e divulgadores não hesitaram nem hesitam em meter os nomes de Deus, de Jesus e de Maria, sua mãe, em todo este “cozinhado” eclesiástico-católico sem pés nem cabeça, convertido, com o passar dos anos, numa engenhosa fábrica de fazer dinheiro sem paralelo no resto do país, porventura, até na Europa, totalmente isento de impostos (não é por acaso que qualquer congregação religiosa de frades ou de freiras não descansou, enquanto não conseguiu abrir uma casa em Fátima, o mais espaçosa possível, para nela acolher “peregrinos”, pois claro!), e num espaço-altar onde se promove e alimenta um certo tipo de cristianismo católico desgraçado, sem dúvida, o principal responsável por muito do saudável ateísmo generalizado com que hoje estamos cada vez mais confrontados no país e na Europa ocidental. (E como se não bastassem a enorme basílica-túmulo que lá funciona e a espaçosa esplanada com a sua capelinha-cofreforte-ou-banco, ainda se lhes junta este ano mais uma medonha Igreja, denominada da SS.ª Trindade, como se Deus Vivo, o de Jesus, alguma vez vivesse em templos construídos pela mão dos homens, nomeadamente, os homens do poder e dos privilégios, como são os clérigos que nesses locais, mentirosamente ditos sagrados, a tudo presidem como pequenos deuses infalíveis e intocáveis!...)

4. Quem lê com um mínimo de atenção ilustrada e evangélica e também com um mínimo de sentido de dignidade humana, a Documentação Critica de Fátima (hoje, já com vários volumes publicados), compilada com o propósito expresso de justificar cientificamente a veracidade das “aparições”, só pode concluir que, do primeiro ao último momento, tudo aquilo está atolado/conspurcado por pés, mãos e cabeças de clérigos e de bispos residenciais, completamente esvaziados de teologia jesuânica, todos firmemente apostados em impor aquela grosseira mentira ao país e ao mundo. Não há em todo o processo uma única voz dotada de bom senso e de sanidade mental e teológica. Todos os intervenientes actuam manifestamente com o típico espírito de zelosos “cruzados de Fátima”, numa causa que a hierarquia católica por nada deste mundo quis que ficasse pelo caminho, porque representava o seu maior trunfo-vingança contra a República e contra os seus nobres ideais de Verdade, de Liberdade, de Igualdade, de Justiça e de Dignidade humana.

5. O processo que se arrastou, ao longo destes últimos 90 anos e vai certamente prosseguir por muitos mais tem infelizmente contado com a criminosa cumplicidade, feita de distanciamento e de silêncio, de intelectuais católicos e não católicos, inclusive de teólogos e biblistas de todas as Igrejas, que teimam em optar pelo faz-de-conta, como se não fosse nada com eles. E, assim, o que pode ter começado por ser um ingénuo teatrinho catequético, concebido pelos padres da Santa Missão para tentar impor às populações das aldeias a reza do terço, a pia devoção ao Imaculado Coração de Maria e a confissão mensal, e também para meter algum “medo” e “respeito” aos “maçons”que fizeram a revolução da República, engrossou depois, através dos tempos, como um caudal de águas envenenadas, sempre com novos e surpreendentes dados, que nem os principais protagonistas de 1917 conheciam, e que foram sucessivamente acrescentados por clérigos sem escrúpulos, segundo as necessidades e as conveniências de cada momento histórico.

As delirantes Memórias da Irmã Lúcia, iniciadas em 1935 por pressão desses mesmos clérigos que faziam da pobre freira gato-sapato, são, neste particular, o que há de mais aberrante exemplo de manipulação clerical e de delírio eclesiástico. Mas são essas famigeradas Memórias que estão na origem da chamada “Fátima Dois”, por sinal, ainda totalmente desconhecida à data (1930) em que o 1.º Bispo de Leiria publicou a sua Carta Pastoral a dar como “dignas de crédito” as aparições e toda a mentira de Fátima que elas objectivamente constituem. Será que vós, meus irmãos bispos, não sabeis estas coisas? Será que preferis ser cegos e guias cegos?

6. Na retaguarda de toda esta mentira, tem estado sempre, desde o primeiro momento até aos nossos dias, um núcleo duro de cérebros clericais, poucos, mas bem concertados entre si. Ora, vestiram o papel de jornalistas que faziam caricatas perguntas às três crianças, ou o papel de inquiridores sobre o “fenómeno”, junto de crédulos e submissos paroquianos escolhidos a dedo. Eles próprios deram as respostas a essas perguntas como melhor convinha aos seus maquiavélicos propósitos (nada foi deixado ao acaso, mas foi assim que nasceu a chamada Documentação crítica de Fátima, toda ela cheia de parra e uva nenhuma, compilada/tratada “cientificamente” e editada, também ela por outros clérigos!); ora vestiram o papel de confessores e de directores espirituais das crianças, sobretudo da sobrevivente Lúcia, depois que esta foi empurrada por eles para a vida de freira de clausura (uma barbaridade sem nome, muito pior do que um ocasional crime de pedofilia!); ora vestiram e ainda vestem o papel de bispos que tudo aprovam e justificam como do interesse de Deus (para este tipo de eclesiásticos, os interesses da Igreja, mesmo os mais inconfessáveis e perversos são sempre interesses de Deus!); e, finalmente, até vestiram o papel de papa de Roma, com destaque para o polaco João Paulo II, um compulsivo fatimista primário, porventura bem-intencionado, mas que tudo tentou para levar de novo a Igreja do Vaticano II aos tempos e às alienantes devoções pre-conciliares, sem se aperceber que todas elas são pagãs, deístas, inumanas, e referentes ao universo religioso das deusas e dos deuses inventados por ancestrais medos das populações não ilustradas e não evangelizadas.

7. Como já disse, nada foi deixado ao acaso, desde o primeiro instante. Até que, em Outubro de 1930, a Mentira das aparições foi declarada digna de crédito pelo 1.º Bispo da restaurada diocese de Leiria, mediante uma Carta Pastoral que, só por si, deveria fazer corar de vergonha a Igreja do Concílio Vaticano II. O documento episcopal, datado de 13 de Outubro de 1930 foi publicado na íntegra, três dias antes, na edição de 10 de Outubro pelo diário católico “Novidades”!!! Apoia-se todo ele num extenso e prolixo Relatório, escrito pelo Cónego Nunes Formigão (querem agora beatificá-lo e canonizá-lo, certamente como recompensa pelos serviços que prestou à causa da mentira de Fátima!), o qual, por sua vez, quase se limita a transcrever pedaços inteiros dos delirantes livros que ele próprio havia escrito e editado anteriormente, sempre sob o pseudónimo de Visconde de Montelo, com o notório objectivo de impor como verdade a mentira de Fátima ao país e ao mundo.

8. A data escolhida para a aprovação oficial da mentira de Fátima também não foi inocente. O Estado Novo de Salazar dava então os primeiros passos e carecia como de pão para a boca duma mãozinha do “céu” (entenda-se, dos clérigos católicos) para se impor definitivamente no país contra a República de 1910 e contra os seus nobres ideais (e não é que há até uma carta atribuída à delirante Irmã Lúcia que fala de Salazar como o escolhido por Deus para conduzir de novo o nosso país aos caminhos da religião católica?!). Ora, como um favor com outro favor se paga, Salazar, uma vez consolidado no Poder, lá assinou a Concordata com o Estado do Vaticano e restituiu à Igreja portuguesa os privilégios dos clérigos e muito do património eclesiástico anteriormente nacionalizado.

9. Entretanto, das três crianças instrumentalizadas para ajudar a dar corpo à mentira de Fátima, todas elas de muito tenra idade e sem saberem ler nem escrever, Jacinta e Francisco eram irmãos de sangue, primos e vizinhos de Lúcia, a mais velhinha, a quem por isso coube naturalmente o papel de actriz principal em todo aquele teatrinho de mau gosto. Foi também a única que sobreviveu a todo aquele frenético alvoroço eclesiástico das pseudo-aparições, já que Jacinta e Francisco, de tão fragilizados e aterrorizados pelo medo do inferno incutido pelos pregadores da Santa Missão não resistiram à pneumónica que, pouco tempo depois da mentira de Fátima, grassou na região e dizimou muita gente (como vêem, meus irmãos Bispos, nem a senhora de Fátima, com tanta fama de milagreira lhes valeu, nem valeu às populações empobrecidas da região). Mas o que ainda mais dói, na morte antes de tempo destas duas crianças irmãs é o escandaloso abandono a que Jacinta e Francisco foram votados, durante a doença, por parte dos clérigos que as utilizaram, como a deixar perceber que até lhes convinha que elas morressem. A mentira de Fátima teria assim mais facilmente pés para andar. O que veio a suceder, sobretudo depois que conseguiram manter sequestrada por toda a vida e em progressivo estado de delírio, a única sobrevivente, Lúcia.

10. Eis, meus irmãos Bispos o que achei por bem dizer-vos nesta ocasião dos 90 anos da mentira de Fátima. Não me queirais mal por isso. Sabei que o que me move é o amor à causa do Evangelho que, como presbítero da Igreja do Porto, me cumpre anunciar oportuna e inoportunamente. Ai de mim, se não evangelizar. Bem sei que a mentira de Fátima é por vós oficialmente apresentada, desde a primeira hora, como uma epifania de Deus. Mas esse é o seu pecado maior. Porque a Deus, o de Jesus, nunca ninguém o viu nem verá. “O Filho unigénito, que é Deus e está no seio do Pai, é que O deu a conhecer" (Jo 1, 18). Sabeis como eu que o que não for assim é mentira, delírio, perversão demoníaca. Nem argumenteis que há fenómenos que nos ultrapassam e que não somos capazes de explicar. Porque, em nome da Fé de Jesus, uma coisa sempre teremos de dizer: Pois se não sabeis explicar este ou aquele fenómeno, investigai mais, até conseguirdes. E, enquanto não conseguirdes, livrai-vos de, em momento algum admitir que pode ser uma manifestação miraculosa de Deus. Nesse momento, abristes a porta à idolatria, a mais abjecta. E não será por sermos um país caído em idolatria, praticamente desde a fundação da nacionalidade, que somos hoje o povo que somos? Pensai nisto que vos digo, meus irmãos bispos. E, se tiverdes coragem, mudai radicalmente de vida e de Deus. Abandonai o falso Deus da senhora de Fátima, com tudo de vampiro e de demoníaco, e deixai-vos amar/conduzir pelo Deus Vivo, o de Jesus. E de Maria. Deixo-vos o meu afecto e a minha paz.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

OS CRENTES...




O que me causa perplexidade não é a história de Fátima, é o facto de tanta gente acreditar nessa história tão mal contada.
Procurei saber a posição da Igreja sobre o caso e dei-me com este texto de Ratzinger. É o perfeito exemplo da retórica católica. Uma construção que pretende ser intelectualmente credível mas que não resiste a uma análise sensata dos que não têm fé. Os que a têm, acreditam em tudo o que vier da boca dos "representantes de Deus na Terra" - sem se darem conta da enormidade de orgulho e presunção que isso é. E sem perceberem que, guindando-se a um plano tão alto, a queda é mais estrondosa, como se verifica hoje com o escândalo dos padres pedófilos.
A interpretação dos três segredos de Fátima é um delírio de imaginação, com a pretensão de abordagem histórica e de compreensão do que foi o século XX. Como levar a sério tal discurso quando vemos que ele ignora o Holocausto, o horror nazi e a barbárie capitalista? E ao mesmo tempo erige como grande problema da humanidade a "conversão da Rússia"...

domingo, 9 de maio de 2010

A PROPÓSITO DE UM ESPECTÁCULO

Para arquivo e melhor consulta aqui ficam os comentários suscitados pela minha apreciação ao espectáculo do ATV em 30 de Abril no Teatro Cine, feita no LUGAR NO TEMPO.




03/05/10 22:51



Rogério Nuno Costa disse...

...obrigado pelo comentário.
e, claro, pela acertada interpretação das questões que, no espectáculo, são de facto as mais importantes. Este ano comemoram-se os 200 anos do VAZIO. É urgente que Torres Vedras saiba que por aqui, há 200 anos, não se passou rigorosamente nada.
Até à próxima!

Rogério



04/05/10 16:44



Méon, disse...

Não se passou rigorosamente nada?

Ou é ironia ou ... (desculpe a crueza)uma enorme ignorância.
De facto não houve uma batalha como no Buçaco. Mas as Linhas serviram exactamente para isso: para que não houvesse batalha.

Mas houve muitas outras coisas: mobilização de milhares de pessoas para a construção de fortes, redutos, estradas, travezes, abatises, paliçadas, escarpamentos, transportes de materiais, etc.
Houve dois exércitos de milhares de homens frente a frente durante cinco meses, com tudo o que isso implica de problemas de sobrevivência de militares e civis; houve muita gente a morrer de fome e de doença.
Como é possível dizer que "não houve rigorosamente nada"?



04/05/10 17:03



Rogério Nuno Costa disse...

caro méon,

viu o espectáculo. e sabe que se trata de teatro. não se trata de investigação histórica. logo, trata-se de ficção, e não constatação.
pode ler o meu comentário com o filtro da ironia. eu prefiro lê-lo com o filtro do cinismo. acho-o mais interessante do ponto de vista artístico. apenas e só artístico, atenção!

nesse sentido, dizer-se que "não se passou rigorosamente nada" poderá quer dizer que "há-de ter-se passado qualquer coisa de relevante, mas que aos nossos olhos nos parece insuficiente para atingir a categoria de efeméride municipal".

afirmar, num espectáculo, aquilo que afirmo, não é ironia, é cinismo. e é auto-envenenamento: o mesmo dinheiro que a cãmara gasta na dita comemoração da efeméride, é o mesmo dinheiro que paga o nosso espectáculo.

repito: faço teatro, não faço história. e respondo enquanto autor de teatro. da forma como acabei de responder.



04/05/10 17:26



Luís Filipe Cristóvão disse...

Moedas,

de facto, o princípio da nossa ficção está no Vazio, no facto de aqui não se ter passado nada de relevante para ser comemorado.

Daí, partimos para o Vazio enquanto amálgama de Nações, e dessa amálgama para o Vazio de novo.

Depois, tentamos criar uma Nação Utópica, imaginária, impossível. Uma nação que rebate a necessidade ganhar ou perder com o lema "só queremos empatar".

E, no fim, aquilo que sentimos, é de facto o Vazio. Os 200 anos do Vazio.
Uma peça de teatro não tem que ser uma verdade histórica. Mas usamos a história para explicar melhor aquilo que sentimos.

Acho que isso foi conseguido, tanto que no teu texto fazes uma leitura exacta do que pretendíamos apresentar.
Um abraço.



04/05/10 17:59

Méon, disse...

Estamos a falar de coisas muito diferentes, parece-me.

Do meu ponto de vista, uma coisa é fazer ficção com intenções artísticas a partir das nossas representações mentais; outra é distorcer propositadamente os factos históricos para fazer essa ficção.

É aceitável interpretar a História, fazer uma leitura dela, a partir dos acontecimentos documentalmente comprovados; mas é abusivo (e inútil! ) negar os acontecimentos, sob pena de se cair no descrédito.

A leitura que fiz do espectáculo dava o benefício da dúvida quanto a esta questão. Pareceu-me uma interpretação da História, no sentido de a depurar dos resquícios de patrioteirismo balofo que ainda surge aqui ou ali, esporadicamente. Ao mesmo tempo parecia-me que abordava a questão central do nosso tempo que é da necessidade urgente de ultrapassar os nacionalismos estreitos, quando há muito o capital financeiro já o fez, sem qualquer escrúpulo. Por fim, parecia-me que fazia um ajuste de contas com o imaginário nacionalista do Estado Novo.

Mas vejo agora que o ponto de partida dos responsáveis do espectáculo foi um equívoco. Partiram do princípio que se estava a comemorar, no sentido de festejar uma vitória. Ora, se é essa a leitura que fazem, ela está errada. A intenção não é comemorar. É evocar, lembrar, avivar a memória, para melhor compreender o presente.

Recordo as palavras do Comissário das Comemorações, Manuel Clemente: “Lembrar hoje as Linhas de Torres Vedras, na paz europeia de que felizmente gozamos, é evocar todo os que aqui estiveram, dos dois lados das Linhas, quando nós, seus descendentes, nos reencontramos num projecto comum para o Continente e para o Mundo.

Lembrando os de então, abrimos o futuro na solidariedade e na paz. “

Quando se pega na História de uma forma equívoca, facilmente se cai no absurdo e no abuso ofensivo de meter no mesmo saco Hitler e Soares, Salazar e Cunhal – como vimos na peça.

A História é uma ciência e reconhecê-lo é uma conquista da humanidade. Não é por acaso que os ditadores é que refazem a História, ao arrepio da sua construção científica e ao serviço dos seus projectos políticos.

Por isso, estou em desacordo com a forma de abordar esta questão da História, do modo como o Rogério e o Luís Filipe agora o fizeram nos seus comentários. O Luís, ao afirmar que usa a História para explicar o que sente, está a fazer exactamente o que faziam os nacionalistas do Estado Novo, que também usavam a História para se explicarem, só que noutra perspectiva.

O Rogério, ao usar a História como se fosse um fait-divers, deixa de fazer uma abordagem séria de um fenómeno sócio-histórico e entra no domínio da laracha gratuita.

Está no seu direito. E eu estou no meu, ao rejeitá-lo liminarmente.



05/05/10 00:14



Rogério Nuno Costa disse...

...porque continuo a acreditar, de forma igualmente liminar, que não me cabe "fazer história", mas "teatro", deixo aqui o comentário que escrevi relativamente ao fado cantado no espectáculo:

https://www.blogger.com/comment.g?blogID=5868859117929738847&postID=2614506379254762796&isPopup=true

caro méon, não se pode confundir o criador do espectáculo com a ideologia do espectáculo. se assim fosse, o shakespeare seria lembrado por ser um sanguinário incorrigível, todos os autores gregos como apologistas do fratricídio ou do incesto, ou então, se quisermos agarrar em exemplos "contemporâneos", a sarah kane seria uma apologista ferrenha do suicídio entre outras abordagens extremistas ao corpo e à vida.

em ficção, os temas interessam-me enquanto propulsores de narrativas teatrais (e para-teatrais). nesse sentido, as invasões napoelónicas são tão interessantes/importantes quanto um saco de batatas. não se trata de denegrir gratuitamente um facto histórico. trata-se, sim, de construir a partir dele uma narrativa teatral autónoma.

repito: o cinismo é mais interessante artisticamente do que a ironia. e é assumido por parte dos criadores deste espectáculo que só podemos fazer o que quisemos fazer se nos dermos a possibilidade auto-mutiladora de provarmos do nosso próprio veneno. é por isso que neste espectáculo não existe "moral" possível (outra coisa que não deveria fazer parte do léxico teatral contemporâneo).

a sua abordagem (perfeitamente legítima, atenção!) escreve-se, aqui, contra-corrente ao nosso pensamento artístico, pois é absolutamente moral: o que se pode e o que não se pode fazer com uma matéria histórica específica. não nos cabe fazer discursos legitimadores da proposta/encomenda (isso cabe aos dirigentes políticos que a promovem, mal ou bem). cabe-me (e isso farei SEMPRE) legitimar o discurso artístico que alicerça a obra.

lamento desapontá-lo, caro méon, mas estamos a falar de um espectáculo que não é, nunca foi nem nunca será "SOBRE" o tema histórico. estamos a falar sobre um espectáculo que é "SOBRE" o seu próprio processo de construção. o tema é subsidiário...



abraço,

rogério



05/05/10 17:40



Méon, disse...

Bom, esta conversa vai animada e é muito interessante.

Parece-me que os criadores do "Selecção Nacional" estão em pleno pós-pós-pós-modernismo".
É o beco em que está toda a arte contemporânea. Quando se esgotam as abordagens comprometidas com visões da vida ( o tal "moralismo", de que fala o Rogério?), entra-se no cinismo auto-fágico e na contemplação narcísica dos próprios gestos.

Para quê?
Se fosse para afirmar a liberdade de fazer o que se entende, ainda eu compreendia. Mas parece que não, porque se assim fosse, isso já seria "moralismo"...

De facto eu não consigo lidar com este tipo de abordagem artística, assumidamente cínica e descomprometida com os conteúdos.

Provavelmente estou a ser redutor e estreito de vistas. Porque continuo a raciocinar em termos de forma/conteúdo, com valores ideológicos incluídos.

Fora disto, tenho a impressão de que a arte procura desesperadamente uma saída, como aqueles heróis de BD que chegam ao fundo de um beco escuro e só encontram paredes altíssimas, lisas. Não há saída...

Uma pergunta final: que pretendem os criadores deste espectáculo?

Gostava de uma resposta clara e sem subterfúgios, se pudesse ser...

Abraço!



05/05/10 17:59



Rogério Nuno Costa disse...

caro méon,

sim, a conversa vai animada e muito interessante. é raro falar-se dos espectáculos através destas questões (que são garantidamente as que me interessam).

não são os criadores deste espectáculo que estão em pleno pós-pós-pós-modernismo. parece-me ser essa a condição dos tempos em que vivemos (sim, é uma condição, não é uma corrente estética, ao contrário do que muita gente pensa). é minha missão, enquanto criador, dialogar com essa condição. não tenho qualquer vontade de a mudar/superar/ultrapassar/destruir/construir/desconstruir. talvez compreendê-la melhor...

é um beco sem saída? é. será necessário encontrar a luz ao fundo do túnel? tenho dúvidas. a arte, hoje, tem que lidar com a sua própria inutilidade, sem dramatismos idiotas nem promessas de um mundo melhor. não é uma qestão de demissão, é a constatação de uma realidade que, ainda que pareça que não, é fértil do ponto de vista do pensamento e da reflexão.

eu próprio me debato diariamente com a essência do gesto artístico e com a legitimidade da sua existência numa época em que o mesmo não vale rigorosamente nada. digo isto em contraponto com um ideal utópico passado, que me recuso a querer recuperar. mas não acho que a este nível o méon seja redutor e estreito de vistas. talvez só um bocadinho "romântico" demais... está no seu direito.

a "abordagem cínica e descomprometida com os conteúdos", que o méon parece recusar, não é um fim. é um caminho (e por aqui começa a resposta à sua pergunta no final do comentário). costumo usar as palavras de um artista plástico que admiro, chamado Thomas Hirschhorn, quando me proponho a falar sobre estas questões. diz ele que não faz "arte política", faz "arte politicamente". sempre me interessou mais o percurso que o ponto de chegada. sendo que no percurso está também o ponto de partida. interessa-me procurar a essência do gesto artístico. prefiro a ontologia à hermenêutica.

posto isto, o que pretendo com este espectáculo (e falo por mim, pois o luís não tem participado neste debate) é a procura de uma solução para uma pergunta/problema: o que fazer com uma encomenda?

pelo que disse atrás, facilmente se constata que tanto me interessa o sucesso quanto o fracasso na obtenção dessa resposta. não acredito em respostas consoladoras, por isso prefiro trabalhar muito bem a pergunta, a ver se a resposta brota sozinha, sem que eu precise de a revelar. na verdade, não há resposta possível, e é mesmo assim que tem que ser.

um espectáculo vive e sobrevive em cima de uma estreita relação com o tempo e o espaço concretos (não abstractos) em que se encontra construído. é certo para aquele momento. e só para aquele. não acredto em obras "universais". prefiro os particularismos. gosto da ineficácia. e gosto do erro. tenho uma fé inabalável no poder criador (nem sequer digo "criativo") do falhanço. e acredito mais no pensamento que na prática.

o espectáculo segue sempre nas cabeças de quem o vê. por isso o espectáculo também está a acontecer agora, no exacto momento em que escrevo e dialogo consigo.



abraço.



05/05/10 18:45



Méon, disse...

Pois bem, caro Rogério: parece que já nos entendemos.

Percebi o seu ponto de vista e você percebeu o meu.

Fico à espera do seu próximo espectáculo. Se puder, lá estarei. E sabe porquê? Porque, embora não partilhando os seus pressupostos artísticos, e apesar de alguma "seca", eles me divertem. O que, nos tempos que correm, não é nada mau...

Por mim, como já não tenho mais música, meto a viola no saco e por aqui me fico.

Você faça o que entender, este espaço também é seu, com todo o gosto!



Saravá!



05/05/10 19:54



Rogério Nuno Costa disse...

...uma vez mais obrigado pela disponibilidade para a discussão. repito: é raro.



quanto aos próximos espectáculos, tomei a liberdade de adicionar o seu e-mail (o que aparece no seu perfil aqui no blog) à minha mailing list, para receber informações. se não desejar, é só dizer.



até sempre!

r.



05/05/10 19:57



Luís Filipe Cristóvão disse...

Olá amigos,



como sabem ontem estive presente na actividade do comboio de leituras e não pude participar desta discussão. apesar de chegar tarde, não quero deixar de adicionar algumas reflexões próprias a esta questão, já que o projecto "Selecção Nacional" tem importâncias, origens e consequências diferentes no meu trajecto artístico e no do Rogério.


Ao ser convidado para escrever os textos deste projecto, participei desde o início na sua concepção, acompanhando leituras, ensaios e ideias para as suas várias representações (filme/fotografia/peça). Sendo para mim um novo desafio a escrita de um texto teatral, não me consigo separar em momento algum do facto de ser um texto e de, para mim, o jogo ser feito no papel. E é desse modo que a "Selecção Nacional" se conjuga perfeitamente com, por exemplo, o meu último livro, "A Cabeça de Fernando Pessoa". Em ambos os casos me aproprio de discurso alheio, seja de autores, seja do discurso quotidiano, e o subverto a favor dos meus argumentos dentro da obra de arte que estou a executar.

Acredito que a obra de arte deve provocar, deve desestabilizar, deve ser um tanto incómoda à ordem habitual das coisas. E é nesse sentido que se cruzam Soares, Hitler, Cunhal e Salazar, é nesse sentido que se apelida de "mentirosa" a Rainha Santa, "bêbeda" a Amália, "assassina" a Rosa Mota. Em cada momento do texto se espera criar uma reacção do espectador, tendo sido a mais visível aquela em que alguns espectadores levantaram de facto os braços quando no texto se dizia "levantem os braços, plateia".

É difícil para mim imaginar uma moral na arte. por isso também apelidei este trabalho de "exposição radical do fascismo", uma exposição violenta do que foram utilizações moralistas de formas de arte, de discurso político, de leituras históricas, no sentido de provocar no espectador esse incómodo de ter que pensar tudo de novo à luz desta nova utilização da informação.

Passamos a vida inteira a tentar encontrar formas de colocar protecções em tudo aquilo que fazemos. É-nos mais favorável encontrar lugares onde passemos incólumes. Mas se não posso andar na rua a provocar as pessoas, a tentar fazê-las pensar pelos seus próprios meios, pelo menos quando as pessoas se dispõem a entrar numa sala ou a abrir um livro para se encontrarem com um texto meu, exerço esse meu direito artístico de as tentar deslocar do seu conforto diário.

Não é sem um sorriso que vejo comparada esta peça com o discurso do Estado Novo. Um discurso que eu abomino e ao qual devoto o meu mais profundo desprezo. Mas, estando aqui a tratar de ficção, sendo eu um ficcionista, alguma coisa terei feito bem para que isso seja confundido.



Um abraço.



06/05/10 10:22



Picacuca disse...

Entro neste debate pela porta do lado, uma vez que não vi a peça que lhe deu origem.

O que não quer dizer que não possa ter alguma opinião sobre as ficções baseadas na realidade, mas o que me faz dar aqui a minha opinião, é esta frase do Rogério Nuno Costa, que destaco...

"a arte, hoje, tem que lidar com a sua própria inutilidade, sem dramatismos idiotas nem promessas de um mundo melhor. não é uma qestão de demissão, é a constatação de uma realidade que, ainda que pareça que não, é fértil do ponto de vista do pensamento e da reflexão."

Parece-me bem que, nesta época pós-pós-pós o que se quiser, (há quem lhe chame também neo-barroco), a arte tornou-se mais um produto passível de ser vendido e comprado. Vivemos na era dos sentidos, do espectáculo, da diversão, do virtual... A arte hoje em dia, é uma forma de espectáculo, de diversão. Um meio para nos "sacudir" os sentidos, as ideias! Cumpre com a sua função? Bom, às vezes até cumpre, às vezes, até sacode algumas ideias...

Muda o mundo? Sempre mudou. E o inverso também é verdadeiro, ou seja, o mundo sempre mudou a arte. Podemos não dar por isso neste momento, mas já que se fala em história, é certo e sabido por anterior experiência, que esta só se deixa mostrar na sua plenitude, após o "arrefecimento" dos acontecimentos que a causaram.
Dito isto, penso que será, no mínimo, superficial a afirmação de que a arte não serve para nada.

Tal como acontece com um casal quando entra na rotina matrimonial, a nossa relação com a arte pode-nos parecer agora vazia, uma vez que a temos permanentemente à disposição, nas mais diversas formas e suportes. Manifestações artísticas, maiores ou menores, (ou simplesmente exercícios de estética com fins publicitários), entram-nos pelos olhos dentro a toda a hora.

Nesta época do espectáculo, tudo é espectáculo! Até o que seria suposto ser um "chato" discurso político (veja-se o exemplo Obama) torna-se num ápice, num espectáculo apreciado por legiões de fãs em todo o mundo.
Nesta época pós-pós, onde tudo é globalizado, reproduzido, embalado, e teatralizado, a arte, principalmente as artes visuais e performativas, têm grande presença nas sociedades. Transformam-nas? Certamente! Se é para melhor ou pior, aí é que já nada se pode dizer... Fica apenas a dúvida, até porque, a arte é o que é, e a classificá-la, seria somente como um conjunto particular de manifestações do sentir humano, e não como uma ideologia político/social ou de qualquer outro tipo.
Mas partir dessa dúvida para a afirmação de que a arte de nada serve, além de redutor, acaba por ser excesso de cinismo. Talvez com algum valor artístico, mas mesmo assim, cinismo.
Porque, quem assim fala, sabe bem que vive da arte. E não me refiro ao termo "vive" apenas de forma material, mas mesmo, e essencialmente, de forma emocional. E o mesmo se passa com a humanidade, que, não só vive da arte, como já não vive sem ela.

Tal como o hipotético casal que já não reconhece a profundidade da sua relação, também aqueles que mais lidam com a arte hoje em dia, não lhe reconhecem mais que que autofágicos motivos para continuarem a produzir e para dela continuarem a usufruir.
Mas, experimentem (se conseguirem) afastar-se de toda e qualquer manifestação artística. Aí sim, sentirão a utilidade da arte...
Comer demasiado daquilo que nos agrada, dá sempre nisto... :-)