quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

UM POEMÓRIO




MÃE DOS DESDENTADOS



Juro que vi e ouvi: a Fátima Lopes chamou três concorrentes e contou as histórias deles. Tinham perdido as dentaduras, cada um de sua maneira. Num programa ao fim da tarde na TVI, “Agora é que Conta”. Parece que dá todos os dias




Nossa senhora de fátima lopes

roga por mim que perdi a dentadura

já procurei na sanita e no tanque das termas

nem sei se a vendi em segunda mão



quando fui à loja de penhores

e emprenhei a carteira com trezentos euros

de uma libra antiga uns brincos

e uma pulseira que me tinha dado a minha avó



antes de morrer a pedir que lhe rezasse missas

pela alminha e o jantar já se estava a queimar

olhei as horas ela morreu já sem pulseira

apaguei o lume a tempo  ainda jantei



nossa senhora de fátima Lopes

aqui trago a factura as dentaduras são caras

pela hora da morte nem eu já me lembrava

mas tu podes eu te peço ajuda-me lopes



de fátima senhora da têvê ao fim das tardes

eu suplicante de contas e factura na mão

nem já dinheiro para missas tenho

alminha da minha avó de noite pelos casais



como a outra da mãe do camilo pessanha

que não tinha fátima nem lopes a quem pedir

mal de ser português e precisar de dentadura

eu te suplico  tanto tanto que eu preciso



de voltar a rir-me com a dentadura toda

a encher a boca de dentes branqueados

reluzentes como a pulseira da minha avó

ave fátima lopes mãe dos desdentados

 J. Moedas Duarte

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

terça-feira, 4 de outubro de 2011

EU VIVI NO TEMPO DA PIDE!


Venerando de Matos é um investigador da História Local de Torres Vedras.
Há dias desenterrou dos arquivos da Pide, na Torre do Tombo, este relatório. É um documento muito elucidativo sobre o que era Portugal há 50 anos.
Quando vim viver para Torres Vedras, no início dos anos 70, conheci quase todos os homens que o esbirro denunciou neste relatório, como agentes perigosos de subversão: o Dr. Troni, Vitor Cesário da Fonseca, Raimundo Porta, Pedro Fernandes, Adalberto Carvalho, Francisco Ceia...

Não esqueço que estes esbirros da PIDE nunca foram castigados. Antes pelo contrário. No tempo do Cavaco dois deles até requereram e receberam pensões de reforma, pelos bons serviços prestados. Ao mesmo tempo, o capitão de Abril, Salgueiro Maia, era afrontado com uma recusa de pensão.

Que a memória não se apague!

sábado, 1 de outubro de 2011

CORRUPÇÃO? É PARA MANTER!



Antero Valério, no seu Anterozóide. Sempre oportuno!

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

HISTÓRIA DE PROVEITO E EXEMPLO...







Do blogue O JUMENTO, com a devida vénia:

Um desviou 600€ e suicidou-se. Outro roubou 90 milhões e está na maior

«Fiquei estupefacto, para não escrever o que proferi na altura em alto e bom som, com uma notícia avançada aqui no Expresso:

"Carlos Marques, o principal arguido de um dos processos saídos do caso BPN, devolveu mais de €16 milhões, que tinha recebido de forma fraudulenta. O dinheiro encontrava-se em contas na Suíça, segundo avança o site da SIC" "... "No total, com os juros incluídos, o empresário terá obtido um financiamento fraudulento do BPN de mais de €90 milhões, ainda de acordo com a SIC." "O arguido deverá passar para prisão domiciliária no final desta semana, tendo em conta a colaboração com as autoridades."

Pelo meio tivemos umas garantias falsas, contas no BES, transacções para aqui e para ali, compras e vendas de terrenos em Angola (esse país politicamente impoluto como se anda a descobrir) e sei mais lá o quê. Nada de especial. Pergunto:

Este senhor Carlos, pessoa idónea que devemos respeitar enquanto cidadão, um individuo que através de trabalho árduo amealhou em pouco tempo vários prémios do euromilhões que após algumas voltinhas pelo mundo obscuro das finanças, foi "estacionando" com carinho em várias garagens suíças, um individuo que ajudou a levar ao charco um banco que os portugueses estão a pagar vai assim, sem mais nem menos, para casa? Como? "Colaborou"? Desculpem? Será que li bem?

Há pessoas encarceradas que assim permanecem indefinidamente, algumas sem acusação, sem direito a nada, sem que ninguém os PROTEJA, alguns porque roubaram meia dúzia de tostões para aguentarem mais um dia e este senhor, um burlão de milhões, vai para o quentinho do lar à espera de destino porque, veja-se bem, se dignou a devolver 16 milhões dos 90 milhões que roubou? ROUBOU! Mas era suposto agradecermos-lhe a bondade do acto? Chamem já o Malato e vamos fazer-lhe um "Especial Carlos Marques" no Coliseu... E que tal erguer-lhe uma estátua, não? Ele e Oliveira e Costa, os dois abraçados, a fazerem um manguito de bronze ao Fernando Pessoa ali no Chiado - era bonito.

Recentemente, em Coimbra, Nuno - um funcionário das bilheteiras dos serviços municipalizados, desviou alegadamente 600€ das contas camarárias. O mesmo funcionário parece ter-se prontificado a restituir a "fortuna" que havia desviado. Politiquices rascas e a denúncia de um vereador socialista de nome Carlos Cidade,guerrinhas de faca e alguidar, levaram este caso directamente para a capa dos jornais mal terminou a reunião de câmara onde este confrontou o Presidente. Resultado: o funcionário chegou a casa no dia seguinte, fechou-se na garagem, meteu uma corda no pescoço e matou-se. Finito. Com apenas 35 anos e sem se despedir da mulher e do filho, Nuno pôs termo à vida.

As diferenças entre estes dois casos são simples. A primeira é óbvia: são 90 milhões de euros do Carlos menos 600 euros do Nuno, enfim..."é fazer as contas". A segunda tem a ver com o facto de uma pessoa ter ou não vergonha na cara, coisa que não abunda neste país. Nuno, que infelizmente já não está entre nós para dizer a vergonha que sentiu, e que fez com que pusesse termo a própria vida. Já o senhor Carlos Marques, novo colaborador da justiça portuguesa, um verdadeiro justiceiro, um altruísta, estará certamente instalado no seu "Palacete da Quinta da Casa Branca, em Carnaxide, avaliado em €5 milhões", que certamente terá, não uma, mas várias garagens.» [Expresso]

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

CRÓNICA DE MANUEL ANTÓNIO PINA

 

 

Hoje, no Jornal de Notícias.

Subscrevo, indignado!

Ordem para morrer


O que, para além de toda a tagarelice justificativa, resulta das anunciadas medidas de redução da despesa (ainda apenas "planos"; "realizações" são, para já, a nomeação de centenas de 'boys' e dezenas de "grupos de trabalho", 11 só à conta de Relvas, três deles para o futebol) é que ou Passos e Portas não faziam a mínima ideia do que falavam quando criticavam as "gorduras" do Estado ou mentiam deliberadamente quando se atiravam como gatos a bofes contra Sócrates por aumentar os impostos (um e outro preocupavam-se então muito com as "famílias").
Andaram anos a chamar mentiroso e "Pinóquio" a Sócrates porque as suas políticas não coincidiam com as suas promessas e, em dois meses, não têm feito outra coisa senão desdizer-se. A solução que tinham na manga era, afinal, o empobrecimento geral (geral?, não: uma pequena aldeia de 25 magníficos continua a enriquecer escandalosamente à custa desse empobrecimento).
Agora, aos trabalhadores (Amorim excluído), pobres e pensionistas, juntam-se os doentes no lote dos "todos" a quem Passos e Portas cobram a factura da crise. No caso dos doentes, pagando com própria vida se for o caso: os responsáveis nacionais pelo programa de transplantações demitiram-se sexta-feira revelando que os cortes na Saúde "não respeitam a vida humana" e vão "matar pessoas". Não me parece que Paulo Macedo se preocupe com isso: trata-se de doentes crónicos, que só dão despesa...

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

AGORA FALO EM FALOS




A notícia vem AQUI.

Uma criativa resolveu recriar a tradição falótica das Caldas da Rainha.
Acho muito bem, falos é coisa que fica sempre bem em cima do psiché...

quarta-feira, 27 de julho de 2011

HETERODOXIAS



AVÉ, MÃE DOS DESDENTADOS

Juro que vi e ouvi: a Fátima Lopes chamou três concorrentes e contou as histórias deles. Tinham perdido as dentaduras, cada um de sua maneira. Num programa ao fim da tarde na TVI, “Agora é que Conta”. Parece que dá todos os dias

Nossa senhora de fátima lopes
roga por mim que perdi a dentadura
já procurei na sanita e no tanque das termas
nem sei se a vendi em segunda mão

quando fui à loja de penhores
e emprenhei a carteira com trezentos euros
de uma libra antiga uns brincos
e uma pulseira que me tinha dado a minha avó

antes de morrer a pedir que lhe rezasse missas
pela alminha e o jantar já se estava a queimar
olhei as horas ela morreu já sem pulseira
apaguei o lume a tempo  ainda jantei

nossa senhora de fátima Lopes
aqui trago a factura as dentaduras são caras
pela hora da morte nem eu já me lembrava
mas tu podes eu te peço ajuda-me lopes

de fátima senhora da têvê ao fim das tardes
eu suplicante de contas e factura na mão
nem já dinheiro para missas tenho
alminha da minha avó de noite pelos casais

como a outra da mãe do camilo pessanha
que não tinha fátima nem lopes a quem pedir
mal de ser português e precisar de dentadura
eu te suplico  tanto tanto que eu preciso

de voltar a rir-me com a dentadura toda
a encher a boca de dentes branqueados
reluzentes como a pulseira da minha avó
ave fátima lopes mãe dos desdentados
 Méon



terça-feira, 28 de junho de 2011

AVIEIROS


Foto de pescadores avieiros, no Tejo, anos 50.
Estamos solidários com a iniciativa de promover a Cultura Avieira a Património Nacional

segunda-feira, 27 de junho de 2011

UMA VIAGEM À ÍNDIA



“Uma Viagem à Índia”, de Gonçalo M. Tavares, recebe Grande Prémio de Romance e Novela APE/MC 2010

Não li e não sei se me apetecerá ler. Já andei bastante pelas páginas do Gonçalo M. Tavares e, para dizer a verdade, não me senti muito envolvido.
Sente-se que é um homem que tem a volúpia da escrita - tem uma produtividade assombrosa. Mas há ali qualquer coisa que não me agarra. Talvez o desenraizamento geográfico dos temas e personagens, a pura inventividade, o desconforto da falta de referências identificáveis.

Mas acabo sempre por aceitar o veredito. Afinal, o júri é composto por gente muito lida, as obras em concurso eram quase 100, e embora não tivesse havido unanimidade, houve uma maioria clara.
Acresce que o livro foi dos mais votados nos balanços de final de ano.
Espero que a Biblioteca Municipal já o tenha adquirido.


quinta-feira, 21 de abril de 2011

quarta-feira, 30 de março de 2011

Governo publica portaria com taxa sobre a banca - Economia - DN

Governo publica portaria com taxa sobre a banca - Economia - DN Veja-se a taxa que a banca vai pagar! Um rombo naquelas fortunas colossais! Equivalência em taxa de falta de vergonha: 1000%!

segunda-feira, 28 de março de 2011

Coisas básicas - Opinião - DN

Estamos numa encruzilhada. Gosto de ouvir / ler todas as opiniões.
Como esta, de Fernanda Câncio:

Coisas básicas - Opinião - DN

sábado, 19 de março de 2011

El Toro y la Luna



A imponente beleza dos touros do meu Ribatejo.
Mas sem tourada nem mitologia machista de matadores e forcados...
Hoje, em que a Lua estará, enorme, no horizonte.
Obrigado pela sugestão, Dona Vicência de Bourbon e Chachada ...

sexta-feira, 4 de março de 2011

Porque - Francisco Fanhais



O imortal poema de Sophia de Mello Breyner Andersen na voz de Francisco Fanhais, início dos anos 70 do séc. XX.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011


Saudades de Alpiarça!

Na foto da direita: a casa do Dr. Mário Zúniga de um lado e a fachada lateral da casa onde o Sr. Eduardo tinha a sua barbearia e onde eu ia ler A BOLA, nos tempos áureos do Benfica Campeão Europeu.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

HOJE, O AMOR



lamento por diotima

o que vamos fazer amanhã
neste caso de amor desesperado?
ouvir música romântica
ou trepar pelas paredes acima?

amarfanhar-nos numa cadeira
ou ficar fixamente diante
de um copo de vinho ou de uma ravina?
o que vamos fazer amanhã

que não seja um ajuste de contas?
o que vamos fazer amanhã
do que mais se sonhou ou morreu?
numa esquina talvez te atropelem,

num relvado talvez me fusilem
o teu corpo talvez seja meu,
mas que vamos fazer amanhã
entre as árvores e a solidão?

Vasco Graça Moura, in “O Concerto Campestre”

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

SIM, ISTO VAI ACABAR MAL...


Não gosto muito de copiar textos, prefiro citar pequenos extractos. Mas este diz TUDO o que eu gostaria de dizer.
Está no blogue O JUMENTO de hoje:

«Antes do discurso da tanga adoptado mais tarde com a chancela de António Borges e a aprovação de Cavaco Silva a então líder do PSD, Manuela Ferreira Leite, foi ao congresso da consagração defender que o dinheiro que iria ser gasto nas obras públicas deveria ser investido em apoios sociais. As questões sociais estavam na moda e vieram a servir de desculpa para o aumento exponencial do défice orçamental que mesmo assim não satisfez a oposição que exigia mais apoios sociais. Mais tarde viemos a saber que 80% da despesa relacionada com o combate à crise foi para o sector financeiro e que apenas uma pequena parte foi para combater a pobreza.

Depois o discurso mudou radicalmente e as preocupações sociais deixaram de estar na moda, agora a moda é retirar apoios sociais e se dantes a oposição nunca estava satisfeita com o aumento desses apoios, agora acha os cortes sempre insuficientes. Se os ministros dizem mata, o Pedro Passos Coelho diz esfola, se Sócrates cortou nos vencimentos e aumentou os impostos o líder do PSD encomenda a José Manuel Fernandes o serviço de ir às suas jornadas parlamentares propor o despedimento de funcionários públicos.

Quando a crise financeira era nos EUA todos os nossos políticos verteram lágrimas de crocodilo por causa dos pobrezinhos, agora adoptam-se ou propõem-se medidas à dúzia sem questionar o seu impacto social. Até ficamos com a sensação de que os culpados de todos os males do país são os que trabalham, por ganharem demais ou terem demasiada estabilidade nos empregos, ou dos mais pobres porque só sobrevivem com apoios sociais que nos obriga a recorrer a empréstimos externos.

Discute-se se o FMI deve vir ou não vir mas sempre na perspectiva do financiamento da banca e de outros interesses, mas ainda não ouvi uma única voz questionar as medidas que constariam num acordo com o FMI na perspectiva social. A economia deixou de ser considerada na perspectiva dos interesses de todos os portugueses mas sim unicamente na dos interesses empresarias, no pressuposto de que se as empresas e a banca estiverem felizes os portugueses também estarão porque terão mais emprego. Só que ao mesmo tempo que se multiplicam as medidas para conforto das empresas são adoptadas outras para restringir os benefícios sociais da recuperação económica.

Esta total indiferença social conduzirá a uma situação em que quando a economia recuperar terá como resultado maiores assimetrias na distribuição do rendimento e mais exclusão social. A par disso diz-se que se defende o estado social o que significa que os mais desprotegidos podem estar desempregados, ver os filhos sem futuro e passar fome não devem ficar preocupados, quando estiverem doentes podem ir à internet e com o número de cartão do cidadão poderão marcar uma consulta no SNS para tratar das suas mazelas.

Isto é possível porque os senhores deste mundo perderam o medo e com isso estão a perder a vergonha, já não há o medo de revoluções e dos mísseis russos, a situação do mundo é tão caricata que o ministro das Finanças vai à capital do único país comunista do mundo pedir ao secretário-geral do PC chinês que o ajude comprando dívida pública, aliá, já em tempos um ministro lá foi sugerindo-lhes que investissem em Portugal onde poderiam beneficiar de uma mão de obra barata e dócil.

Duvido que governantes e partidos da oposição ponham termo a esta espiral de desprezo pelas condições de vida dos portugueses e só o venham a fazer quando for tarde, quando começarem a ver as montras das lojas de luxo da Av. aa Liberdade a serem destruídas ou as sedes dos grandes bancos a serem invadidas por gente sem esperança no futuro. Nessa altura os nossos banqueiros e empresários perceberão que a riqueza do mundo é para distribuir e há limites para a pouca vergonha.

E é uma pouca vergonha que a dívida pública tenha servido para enriquecimento de uns quantos, grandes empresários, banqueiros e empresas de obras públicas, e sejam os que menos ganham, os que estão a ver os seus direitos a serem eliminados a terem de suportar com impostos e cortes sucessivos do rendimento para que os outros entrem num novo ciclo de enriquecimento fácil.

Aquilo a que estamos a assistir é uma orgia de indiferença total pelos que trabalham. Como sempre sucedeu na história da Europa isto vai acabar mal.»

domingo, 16 de janeiro de 2011

ÀS VEZES A LOUCURA É A MELHOR FORMA DE TER JUÍZO




Dez aforismos de Manuel João Vieira

Deve-se pensar depressa com o coração e sentir devagar com a cabeça.
***
O castor constrói os diques. Ninguém lhe pede a assinatura de um arquitecto.
***
Só temos uma coisa a perder: O computador, o carro, o dinheiro, a mulher (ou o «marido»), a liberdade, a vida e, hipoteticamente, a vida depois da morte.
***
O homem é um canibal político.
***
Os partidos são o pão partilhável no circo dos indigentes.
***
Os portugueses não devem pagar do seu bolso os disparates que os governantes andam a fazer. Os governantes é que devem pagar do seu bolso ao povo os disparates que este anda a fazer.
***
Vou acabar com essa vergonha que é a vergonha de ser português.
***
A realidade é um equívoco que Vieira pode recolocar no seu lugar.
***
Para fazer do imperialismo um tigre de papel é preciso ter muita prática de origami.
***
O mal torna o poder paranóico. O poder torna o mal irónico.
[in Livro Rosé de Sua Santidade o Camarada Presidente Vieira, Assírio & Alvim, 2010]

domingo, 12 de dezembro de 2010

TEXTOS QUE NÃO PODEM FICAR ESQUECIDOS

O CONTRATO CÍVICO PARA ALARGAR A DEMOCRACIA À ECONOMIA

Do Blogue ANOVIS ANOPHELIS

O problema maior da nossa época é o do desemprego, da exclusão e da miséria que daí resulta. Como Alain Lebaube bem o disse: “ o que chamamos crise é com efeito uma mutação” e só descreveu o seu aspecto a propósito do trabalho. Ora a nossa sociedade está de tal modo assente no trabalho que a educação não tem como fim formar homens, mas trabalhadores, é o emprego que define a condição social, a ausência de emprego é entendida não como uma isenção, mas como uma exclusão, e mesmo toda a actividade que não se exerça no quadro dum emprego, logo “rentável”, é tratado com desprezo como “marginal”. É portanto uma mutação de toda a sociedade que está em curso, e a questão a colocar é: será uma catástrofe fatal ou somos nós capazes de pilotar esta mutação para que ela escoe sobre uma sociedade humanamente mais consistente?

Fatalidade? O que é fatal, é, em todos os seres vivos, a necessidade de procurar sobreviver. Mas o homem, e é o que o distingue dos outros animais, esmerou-se, ao longo dos milénios, a tornar esta obrigação o mais ligeiro possível, e soube, de geração em geração, acumular saber, e mesmo saber fazer. E eis que esta progressão, muito lenta ao princípio acelerou-se consideravelmente, ao ponto que nalguns decénios pôs os meios que lhe permitem hoje fazer produzir o que tem necessidade por encomenda, pela natureza e por autómatos! Encontrou como assegurar a sua sobrevivência sem consagrar a isso toda a sua vida.. Uma tal mutação na sua maneira de assegurar as suas necessidades vitais transforma evidentemente o seu modo de vida e assistimos a uma perturbação tão grande que aquele que se produziu ao neolítico, mas infinitamente mais rápido. Como não nos havemos de admirar, por consequência, que a adaptação a tais mudanças não se faça sozinha? O homem adquiriu os conhecimentos necessários para exorcizar a fatalidade, mas o que ainda não conseguiu, é adaptar-se.

Como pilotar a adaptação? A atitude mais geral releva efectivamente da incapacidade política. Consiste a agarrar-se ao passado, a recusar ver a importância da mudança, olhar para ela para a negar. É ao fechar os olhos que se obstina ainda a falar de crise e a fazer crer que se vai encontrar o meio de criar novas aplicações para regressar à situação anterior do pleno emprego que assegurava a todos um amplo rendimento… Sem ver que esta fuga para a frente implica um crescimento irrealista e perverso. Pois o crescimento nunca cessou, a produção mundial foi multiplicada por 2,5 entre 1960 e 1990, mas paralelamente o número de horas de trabalho salariado não cessa de diminuir ( no caso francês passou de 40 para 35 biliões, entre 1973 e 1994), de modo que o crescimento acompanha-se agora dum desemprego igualmente crescente o que , no sistema económico em vigor, engendra a exclusão.

Se o sistema fosse perfeitamente liberal, todos os que não se podem vender no mercado de trabalho seriam eliminados. Mas lutas sociais persistentes forçaram as instituições a tomar medidas para evitar semelhante catástrofe, e é assim que o Estado, no nosso sistema de mercado emendado, organiza uma certa redistribuição . Mas esta redistribuição não satisfaz ninguém, nem aos quais se retoma uma parte do que ganharam, nem os que se sentem assistidos quando têm a mostrar que são capazes também do mesmo modo daqueles que têm um emprego. Mais, a redistribuição atingiu os seus limites: o fosso que separa um pequeno número de ricos, cada vez mais ricos, duma massa de pobres, cada vez mais miseráveis, não cessa de aumentar, e isto em todo o mundo. E no mesmo tempo, a pressão da competitividade exerce-se para restringir esta redistribuição e a por fim ao que chamamos o Estado providência.

Os programas políticos que no entanto se proclamam de “progressistas” obstinam-se em sonhar com criações de emprego: é a absurdidade do emprego pelo emprego, quando é necessário render-se à evidência: as empresas só podem pagar os empregos de que têm necessidade. E a sua produtividade é tal que terão cada vez menos necessidade.

Partilhar o emprego que resta? Sim, é claro. Mas não como se partilha a miséria, continuando a pensar que toda a riqueza só pode vir dum emprego. É totalmente absurdo na nossa época onde se produz cada vez mais, mesmo com cada vez menos labor humano.

Ao contrário, sentimos que existe uma infinidade de actividades úteis, e mesmo necessárias, mas o sistema capitalista não as pode financiar que por redistribuição logo, indirectamente, graças ao emprego de produção, e é cada vez menos possível.

É necessário ver a diferença: o emprego que desaparece, é o emprego mercador, aquele que contribui à produção de riquezas que, vendendo-se, ( reembolsam) pagam o emprego.

Quando o trabalho de todos era necessário à produção, o salário assegurava, mais ou menos equitativamente, mas automaticamente, o equilíbrio entre produção e consumo.

Desde que a produção não tem necessidade do trabalho de todos, é este equilíbrio emprego/lucro que é rompido, o poder de compra das riquezas que são produzidas não é mais distribuído pelo sistema capitalista entre todos os consumidores que têm necessidade.

O salariado, após ter durado cerca de dois séculos, desde o início da era industrial, teve portanto o seu tempo. É urgente mudar as regras do jogo. È necessário um projecto social para adaptar a nossa sociedade aos meios de que dispomos hoje em dia.

O que foi proposto por uns quantos sob o nome de economia distributiva embora com origem em Proudhon pareceu a muitos nos anos 50, muito avançado para o seu tempo. Mas hoje, os factos demonstraram as pertinências das análises e das proposições distributivas. E outras exigências apareceram: por um lado, a centralização das decisões impõe receios, após a experiência soviética, por outro o desenvolvimento da bula especulativa mostrou a impotência dos governos, mesmos ditos democráticos, face à finança internacional, e enfim a mundialização da economia suscitou, por reacção, o desenvolvimento de economias locais, à escala humana. Tudo isto fez nascer, ou revelou, a necessidade de estender a democracia à economia. Vou tentar mostrar como o contrato cívico, em economia distributiva, responde a estes diversos objectivos.

Vamos por tudo em pratos limpos. O problema não é de produzir mais. Sabemos fazer, sob encomenda, e poderíamos produzir bem mais, sem resolver a “crise” do emprego. Produzimos muitas vezes coisas inúteis, coisas nocivas, e com desprezo de toda a consideração ecológica, sempre por causa da rentabilidade, Só produzimos em consideração dos únicos bens que se podem pagar. O problema situa-se agora ao nível do acesso a esta produção, logo à distribuição do poder de compra.

É o câmbio dum trabalho contra um poder de compra que é a repensar.

Não somente pelas razões indicadas anteriormente, mas principalmente por outras: a parte do trabalho humano diminuiu bastante ao nível da produção, mas por outro lado, a parte de cada um é cada vez mais de contorno impreciso: o essencial faz-se a montante, não é mais o trabalho presente que conta, é o da concepção, da informação, da organização e os seus novos métodos são o fruto dum progresso geral anónimo e comum. Como pretender avaliar a aparte de cada um numa produção tornada colectiva? E para além disso, é necessário reconhecer e mesmo estimular toda a actividade útil que não entra no campo das que são qualificadas de rentáveis.

Para quê substituir o salariado para responder a estes diversos objectivos?

A minha resposta é: pelo contrato cívico. E passo a explicar.

A permuta quase pontual e quantitativa dum trabalho preciso, limitado e portanto a maior parte das vezes sobre um tempo bem determinado ( por exemplo para a duração legal do trabalho semanal) fornecido por um empregado em troca dum salário convencionado ( à hora ou tanto por mês) pago pelo seu empregador, enquanto que a sua empresa é beneficiária, deve dar lugar doravante a um outro tipo de troca, a uma troca menos pontual, um contrato personalizado entre o cidadão e a sociedade na qual vive. Quer dizer em troca dum rendimento como meio de subsistência pela sociedade, contra um compromisso de participação, segundo as aptidões do indivíduo e segundo as necessidades do conjunto, à vida desta sociedade.

Sem entrar em grandes detalhes, vamos rapidamente compreender que este novo tipo de contrato social não somente vai dar a cada um a possibilidade de organizar a sua vida ( e é essencial para que ele possa desabrochar e desenvolver o melhor dele mesmo: escolhendo as suas actividades, vai escolher também o seu modo de vida para exercê-los nas melhores condições); mas mais ainda, os debates em redor dos contratos vão permitir conciliar as necessidades de liberdade e de autonomia dos indivíduos com as necessidades duma produção definida em vista de satisfazer as necessidades de todos: a iniciativa deixada ao cidadão vai desenvolver a criatividade geral e o debate político que vai suscitar vai permitir adaptar democraticamente a nossa civilização à complexidade que caracteriza a nossa época.

O ensino inicial não terá mais por objectivo tornar um jovem assalariado, mas o de lhe mostrar todas as possibilidades que se abrem diante dele. Assegurar um rendimento suficiente para viver decentemente, este jovem poderá prosseguir esta formação até encontrar a sua voz, e mesmo, eventualmente, fazer vários ensaios, fazer viagens, antes de se consagrar, por exemplo a tempo inteiro, durante vários anos numa empresa. Tal poderá decidir, mesmo jovem, de se comprometer a meio tempo numa empresa, e de consagrar o resto do seu tempo, ou a ocupar-se dum parente, ou duma administração, ou ainda empreender uma nova formação e reorientar-se. Tal outro, após alguns anos numa empresa, ou num serviço público, ou dum trabalho de produção artesanal, poderá tomar um ano sabático para cultivar o seu jardim. Ou poderá mudar de casa, construir a casa, iniciar-se à apicultura antes de se transformar em produtor de mel e conselheiro em apicultura. Outro ainda, fazendo valer a experiência adquirida, poderá pedir os meios de prodigalizar os conselhos a partir dele. Um outro ainda, inspirado, quererá tempo para escrever um livro um uma ópera, para fazer uma investigação, ou seguir o treino intensivo dum desporto, ou para se consagrar à vida política, ou então pedirá os meios de explorar um alvará, etc. etc. Imagine-se a infinidade de combinações de todas as actividades possíveis.

Mas, bem entendido, o facto de vivermos em sociedade implica leis e certos constrangimentos. O primeiro deriva da necessidade de assegurar a continuidade da produção, organizando-a em função das necessidades. Isto implica que haja um mínimo de pessoas que dedicam ao menos uma parte do seu tempo à produção de bens e de serviços. Mesmo que estas possam ser realizadas utilizando as técnicas mais avançadas, e que o progresso técnico diminuirá deste modo o tempo alienado, será necessário impor a cada um o consagrar-se ao longo da sua vida um mínimo de tempo, medido por exemplo no número total de dias ou de horas, este tempo podendo aliás variar consoante o tipo de actividade escolhida.

Compreende-se portanto que a decisão de aceitar, de corrigir ou de rejeitar uma proposição de contrato cívico é essencialmente política e deverá, por consequência, fazer objecto dum debate público e democrático.

Importa que todo o indivíduo tenha a possibilidade de definir ele próprio o seu contrato, mas é evidente que um grupo pode ter posto a funcionar uma proposição comum, do mesmo modo que ofertas de contrato podem emanar de empresas tendo necessidade de se desenvolver. O mais simples dos contratos é evidentemente aquele que consiste em continuar o que se faz: será de todos os activos, satisfazer a sua sorte; para eles a proposição de contrato não será mais que a descrição do que fazem, eventualmente com o pedido duma promoção ou duma mudança no seio da mesma empresa. Os contratos mais complicados dirão respeito as proposições originais de actividades novas, como o estudo ou a obtenção de um diploma, será preciso, naturalmente, descrever a motivação, o objectivo a alcançar, mostrando a possibilidade de realização e a utilidade esperada.

Em todos os casos, é preciso que todas as propostas sejam publicadas, com antecipação, em seguida publicamente debatidas. Segundo a envergadura da proposição, o debate terá lugar ao nível municipal ou regional, ver mesmo internacional, seguindo o princípio de subsidiaridade, por assembleias públicas suficientemente abertas, constituídas pelo menos por tantos utentes interessados pelo projecto como de profissionais que lhe digam respeito, e também a especialistas do meio ambiente, de saúde, do direito, etc. Podemos muito bem imaginar que pessoas se encarreguem de trazer informação assistindo aos debates em diferentes lugares, sobre certos tipos de contrato, para comparar as experiências, ver para aconselhar os proponentes: novas profissões são a inventar!

A maior parte dos contratos necessitarão, com efeito, de avaliações: avaliações de competências, provas de experiência já adquirida, avaliação dos meios, dos investimentos necessários à execução do contrato, e enfim, a avaliação dos produtos do contrato e das gratificações particulares pedidas pelos proponentes para eles próprios. Certos contratos comportarão o empenhamento duma produção, em quantidade e em qualidade. Naturalmente que toda a avaliação preveja uma margem de erro que, deverá também ela, ser estimada. São estes empenhamentos e estas estimativas que servirão de base a uma verdadeira prospectiva económica, evidentemente necessária se temos a preocupação de bem gerar a economia geral, mas impossível no sistema actual, onde o que chamamos desde há pouco o desenvolvimento “sustentável” não é mais que um voto piedoso.

É desta maneira que as decisões económicas poderão finalmente ser tomadas não mais, como actualmente, por bancos e organismos similares, com o único critério de rentabilidade financeira ( atribuído aos accionistas), mas tendo em conta todos os aspectos pertinentes: desde o interesse prático do consumidor até ao preço de produção, em tempo de trabalho e em matérias primas para o conjunto da sociedade, passando por considerações de ordem ética, ecológica, moral, cuidados de saúde, de não poluição, de qualidade do meio ambiente, de preservação dos recursos não renováveis, etc. Por exemplo, no caso de empenhamento de grandes investimentos, será necessário exigir que os contratos definem cláusulas de insucesso, a fim de prever a reconversão possível dos investimentos, e que se pare de ver estes terrenos industriais, na maior parte das vezes poluentes e dos quais ninguém hoje em dia se sente responsável e onde não se pode financiar nem a reconversão nem a destruição.

A duração ideal dum contrato parece ser o ano. No vencimento, todo o contrato deve poder ser reconduzido, seja melhorado ou mudado, mas em todos os casos dando conta da sua execução. Se o empenhamento foi mal executado, será evidentemente difícil ao titular do contrato de obter a recondução. Se a produção foi mal estimada, será levado a fazer a correcção necessária, etc. Mas se a execução foi melhor que a prevista, a sua renovação poderá implicar um bónus, um aumento dos rendimentos do ou dos titulares. São também estes relatórios dos contratos havidos que permitiram repartir o mais equitativamente possível os anos sabáticos e os anos de “labor” duma vida, a partilha entre tempo ao serviço dos outros e tempo de férias, de lazer para si.

Compreende-se como o empenhamento dos contratos cívicos permitem avaliar publicamente e em contínuo, os investimentos necessários, os custos de produção no mesmo tempo que as riquezas que vão ser produzidas. Tecnicamente, trata-se de gerar os dados fornecidos pelos centros de decisão exactamente como a Bolsa gera hoje em dia, e em contínuo, e no mundo inteiro, instantaneamente pois trata-se da velocidade da luz, de enormes quantidades de dados que lhe provem de todo o lado. Os sistemas informáticos estão prontos para estabelecer uma verdadeira prospectiva e uma gestão democraticamente concertada da economia em diferentes escalas, desde a escala local até à escala mundial.

Em economia distributiva, o financiamento é evidente: para que haja equilíbrio entre os bens a vender e os rendimentos dos consumidores, o poder de compra total destes últimos é igual à diferença entre o valor das riquezas produzidas e os seus custos de produção.

Isto realiza-se muito simplesmente com a ajuda duma moeda de consumo, quer dizer duma moeda que não circula, que só serve uma vez para assegurar a passagem dum bem ou dum serviço do seu produtor ao seu consumidor, como um bilhete de comboio. O montante da massa monetária produzida durante um período dado é igual ao preço total dos bens postos à venda. Deste modo, a toda nova produção corresponde a emissão duma nova quantidade de dinheiro. Todos os cidadãos têm uma conta individual, que é periodicamente reabastecida. Estas contas são debitadas a cada compra, a conta correspondente estando anulada. Isto não pede nenhuma técnica nova, todos os meios existem para a realizar: só é preciso que um organismo público seja habilitado a alimentar cada uma das contas pessoais. Para os débitos, a maior parte dos retalhistas estão já equipados com máquinas que debitam as contas lendo, por exemplo um cartão magnético.

Por outro lado, os processos de criação monetária e de anulação de crédito são clássicos: os bancos praticam-nos todos os dias: abrem um crédito por um simples jogo de escrita, quer dizer que agora a soma é registrada num computador, e anulam o crédito, logo que os clientes os reembolsam, por um outro jogo de escrita contabilizável, seja ainda pela cunhagem da soma, mas desta vez precedida dum signo negativo, sobre um registo do mesmo computador que precedentemente. A diferença está em que no sistema actual estes meios são privilégio dos bancos, que criam a moeda segundo os seus próprios critérios e reservam o seu interesse sob a forma duma percentagem; enquanto que em economia distributiva, são organismos públicos que assumem a responsabilidade executando as decisões democraticamente tomadas considerando todos os critérios pertinentes, e que não adiantam nenhum interesse. É deste modo que os conselhos económicos e sociais onde são debatidos os contratos cívicos, substituem, em economia distributiva, por sua vez os conselhos municipais ( ou regionais, etc.) e os bancos.

Como deve ser repartido o poder de compra disponível? É fundamentalmente um problema político, e que é essencial.

Hoje em dia esta repartição resulta da lei do mais forte, ou do mais rico. Inversamente, poderíamos decidir que é igualmente repartido entre todos os cidadãos é a igualdade económica descrita por Proudhon ou o salário social segundo os termos actuais. Mas esperando que todo o mundo esteja de acordo para esta igualdade dos direitos no domínio económico, é o contrato cívico que permite estabelecer democraticamente a maior equidade possível.

O que sugiro, é que separemos em dois a massa de poder de compra a repartir: que uma parte constituindo o rendimento social, igual para todos, e que a outra parte seja distribuída em rendimentos personalizados, definidos nos contratos cívicos. A relação entre as duas partes, o montante dos rendimentos sociais sobre o montante dos rendimentos personalizados, resultará dum debate de política geral. Entre a igualdade económica, que corresponde a um valor infinito para este rendimento, e o valor zero que existe hoje em dia para os desempregados declarados “ em fim de direitos” ( que bela expressão a comparar com a declaração dos direitos do homem!), pode decidir-se um valor intermédio e, segundo as necessidades, para estimular mais ou menos as pessoas, fazer variar este rendimento.

Cada conselho ( local, regional, etc.) vai deste modo dispor duma cobertura para discutir os contratos que lhe serão submetidos. Se o conjunto dos contratos espontâneos permite assegurar a produção desejada, será fácil encorajar contratos de inovação e de aceitar anos sabáticos. Se pelo contrário certas produções, serviços públicos não estão ainda em pleno funcionamento, será possível encontrar candidatos publicando ofertas atraentes, ou estimulando as pessoas através de rendimentos personalizados maiores.

O que isto mostra é que contrariamente, talvez às aparências, a economia distributiva não suprime o mercado. Ela não o suprime: remete-o ao seu lugar, à escala humana, mesmo individual, ao nível dos contratos. Ela devolve-lhe o seu papel essencial que é de confrontar as necessidades de uns com as de outros, as aspirações e os meios de os satisfazer.

Vendo toda a elasticidade que este projecto permite, compreende-se que ele é a chave da extensão da democracia em matéria económica.

Em economia de mercado capitalista, pelo contrário, quem decidiu do tipo de desenvolvimento que levou populações inteiras a abandonar as suas culturas de subsistência e a dever a sua sobrevivência à cultura da droga? Como financiar aqui todos os contratos cívicos, quer dizer do mesmo modo os empregos produtivos e as actividades úteis mas não rentáveis, todo este terceiro sector associativo que não é “competitivo” mas que se desenvolve porque corresponde a uma necessidade de convivência?

Não há dinheiro para devolver a dignidade a todos os excluídos do sistema produtivo, mas os paraísos fiscais permitem às multinacionais de subtrair aos estados somas mais importantes que os orçamentos nacionais. Não há fundos que permitem, por exemplo, aos intermitentes do espectáculo, ter uma vida decente, mas já se encontra para construir em tempo recorde um gigantesco estádio para ser a moldura duma competição. Considera-se que a saúde é arrastada a despesas insuportáveis à sociedade, mas os espectadores podem ganhar milhões instantaneamente, sem mesmo ter os fundos que comprometem! Será que todas estas escolhas foram objecto dum debate?

No sistema capitalista, pondo de lado os meios ilegais como o roubo ou a violência, há somente dois meios para corrigir estes excessos e estes absurdos. Oficialmente, é a redistribuição, para financiar algumas necessidades insolventes com a ajuda de taxas pagas por aqueles que ainda têm um emprego. Mas o limite está prestes a ser atingido. Em França a taxa Tobin, que iria permitir taxar ( 1 por mil!) as fortunas construídas com base nas especulações sobre as taxas de câmbio nunca foi aceite, tão contrária ela é ao espírito do capitalismo. O outro meio é marginal, é a organização espontânea e um pouco o desenrascanço individual, como os sistemas de trocas locais. Mas é uma gota de água no oceano, que não pode impedir as grandes catástrofes, nem gerir o conjunto da economia, nem por termo às mafias. Podemos, talvez, esperar que estas gotas de água façam grandes rios, que comunas, em seguida cidades, e por aí em diante, tomem a iniciativa de criar as suas moedas locais, se dotem dum banco próprio em seguida gerir as suas produções segundo os seus próprios critérios, mas podemos também duvidar que se vá desta maneira muito longe, quando vemos que há tentativas para recuperar estes esforços ao serviço do liberalismo, dizendo em substância: “ Se se organizam à margem do Estado, este último não é mais responsável pela miséria, cada um por si, e o Estado para os melhores”.

É claro, que a economia distributiva perturba os nossos hábitos. É uma maneira nova de raciocinar e de viver em conjunto. Se até agora a competição era natural, se era inculcada nas crianças, é porque o nosso sistema económico tinha sido concebido numa época onde os bens produzidos eram raros, era portanto a corrida para ser o melhor servido.

Somos levados a pensar e a agir doutro modo quando estamos diante dum bufete bem guarnecido e assegurado que será reabastecido por encomenda. Pois que a grande substituição da mão da obra humana pela ciência, em primeiro lugar pela máquina e agora pela informação, permite assegurar a produção das riquezas, é a ocasião de nos desembaraçarmos ao máximo destas tarefas materiais, e de nos libertarmos para outras actividades. Inventemos portanto outras relações sociais para primeiramente, que a produção seja assegurada utilizando ao máximo as tecnologias mais competitivas, e em segundo que ela seja distribuída entre todos, satisfazendo o mais que possível as suas necessidades segundo os seus desejos.

Ousemos por em questão as ideias feitas para procurar em conjunto como organizar a nossa sociedade, não mais num espírito de competição onde cada um procura ser o melhor, ser aquele que bate ou mesmo elimina todos os outros para desengatar o bocado, mas num espírito de cooperação, procuremos como nos organizar para que justamente, cada um possa expandir-se aproveitando o mais possível este património de conhecimentos do qual as gerações precedentes, tacitamente associadas, souberam fazer-nos a todos co-herdeiros.



NOTAS



1- Jean Bancal - Proudhon, Pluralisme et Autogestion, ed.Aubier-Montaigne, Paris, 1970, tomo II, p.217.



2 - Id., ibid., p.216.



3 - Jacques Langlois - Défense et Actualité de Proudhon, Petite Bibliothèque Payot, Paris, 1976, p.37.



4 - P.-J. Proudhon - Les Mélanges (título dado a três volumes da obra em vinte e seis volumes de Proudhon), ed.Lacroix, Bruxelles, 1867-1870, tomo III, p.53. As “Les Mélanges” representam uma recolha de artigos aparecidos no Representante do povo, o Povo, a Voz do povo, o Povo (1850), assinados por Proudhon.



5 - P.-J. Proudhon - Les Confessions d`un Révolutionnaire pour servir à l`histoire de la Révolution de février, ed.Garnier, 1849, cap.2, p.34.



6 - Id., ibid.



7 - Les Mélanges, op.cit., tomo III, p.21 e seguintes.



8 - Ibid.



9 - Les Confessions, op.cit., cap.15.



10 - Les Mélanges, op.cit., tomo III, p.77, in La Voix du peuple, 11 Janeiro 1850.



11 - Les Confessions, op.cit., cap.1, p.34.



12 - Proudhon - Pluralisme et Autogestion, op.cit., tomo I, p.226.



13 - Ibid.



14 - Les Confessions, op.cit.



15 - P.-J. Proudon - De la Justice, “L`Etat”, 2ª Edição, Bruxelas 1860, pp.183-186.



16 - Les Mélanges, op.cit., tomo III, p.11.



17 - Emmanuel Mounier - Communisme, Anarchie et Personalisme, ed.Du Seuil, Paris, 1966, p.138 e seguintes.



18 - Proudhon - Pluralisme et Autogestion, op.cit., tomo II, p.225.



19 - Daniel Guérin - L`Anarchisme, éd.Gallimard, coll. Idées, Paris, 1965.



20 - Emmanuel Mounier - Communisme, Anarchie et Personalisme, ed. Du Seuil, Paris, 1966, p.138 e seguintes.

sábado, 4 de dezembro de 2010

best of socrates (2009 - 2010)



Hoje há palhaços...

OS NOVOS LUSÍADAS


Alguém me fez chegar estas novas estâncias dos Lusíadas. Estão metricamente quase perfeitas e actualizadíssimas quanto ao conteúdo. Desconheço o autor, para lhe elogiar o engenho...

I


As sarnas de barões todos inchados
Eleitos pela plebe lusitana
Que agora se encontram instalados
Fazendo aquilo que lhes dá na gana
Nos seus poleiros bem engalanados,
Mais do que permite a decência humana,
Olvidam-se de quanto proclamaram
Em campanhas com que nos enganaram!

II

E também as jogadas habilidosas
Daqueles tais que foram dilatando
Contas bancárias ignominiosas,
Do Minho ao Algarve tudo devastando,
Guardam para si as coisas valiosas...
Desprezam quem de fome vai chorando!
Gritando levarei, se tiver arte,
Esta falta de vergonha a toda a parte!

III

Falem da crise grega todo o ano!
E das aflições que à Europa deram;
Calem-se aqueles que por engano...
Votaram no refugo que elegeram!
Que a mim mete-me nojo o peito ufano
De crápulas que só enriqueceram
Com a prática de trafulhice tanta
Que andarem à solta só me espanta.

IV

E vós, ninfas do Coura onde eu nado
Por quem sempre senti carinho ardente
Não me deixeis agora abandonado
E concedei engenho à minha mente,
De modo a que possa, convosco ao lado,
Desmascarar de forma eloquente
Aqueles que já têm no seu gene
A besta horrível do poder perene!

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Angela GHEORGHIU - Habanera - Carmen - Bizet



Porque o amor é preciso!

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

UM IMENSO DESEJO DE CANTAR




IMPRUDÊNCIAS

Há sempre, no amor, uma imprudência
um dizer atento
uma flor centrada na alegria da água

Há sempre um esboço de dança
uma gestação de ouro e seda.

O primeiro céu, a primeira colheita
o alvorecer das mãos
no corpo celeste.

Há sempre, no amor, uma mina insondável
um espólio de giestas e searas profundas.

E um imenso desejo de cantar.

Fernando Jorge Fabião

domingo, 7 de novembro de 2010

CLASSES SOCIAIS



«A sociedade compõe-se de duas classes: os que têm mais jantares que apetite, e os que têm mais apetite que jantares»

Nicolas de Chamfort, (Clermont-Ferrand, 6 de abril de 1740[1] — Paris, 13 de abril de 1794) foi um poeta, jornalista, humorista e moralista francês.


terça-feira, 2 de novembro de 2010

The Walkmen - "Four Provinces"

Gosto desta voz!

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

UM MULHER!



Poucas mulheres chegam ao topo da vida política, é um facto que lamento.
Mas hoje chega à Presidência do Brasil UMA MULHER!
O que saúdo efusivamente!

Da TSF:

«Quando estão apurados 90 por cento dos votos, Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores (PT), continua a liderar as eleições presidenciais no Brasil.

De acordo com o tribunal Superior Eleitoral, Dilma Rousseff tem 55,22 por cento dos votos, contra 44,78 por cento para José Serra, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB).
Dilma Rousseff torna-se a primeira mulher a ocupar a Presidência brasileira. A tomada de posse será a 1 de Janeiro de 2011.»

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Acordo Ortográfico: concorde-se ou não

Acordo Ortográfico: concorde-se ou não

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http://sobreisso.com/2010/03/23/novo-acordo-ortografico-da-lingua-portuguesa-principais-mudancas/

Vamos dar uma olhada nas principais mudanças que ocorreram na Língua Portuguesa devido ao Novo Acordo Ortográfico.


Hífen (-): deve ser usado com prefixo + h (super-homem), na duplicidade de vogais (semi-interno), na duplicidade de rr (hiper-requintado), deixa de ser usado com prefixo terminado em vogal + r ou s, que dobram (aintirreligioso, minissaia), também com prefixo terminado em vogal diferente da do elemento seguinte (autoestima).

Trema (ü): deixa de ser usado em nomes comuns.

Acento agudo (´): deixa de ser usado nos ditongos “éi” e “ói” das paroxítonas (ideia, heroico), também nos “í” e “ú” seguidos de ditongo nas paroxítonas (feiura, sainha).

Acento circunflexo (^): deixa de ser usado em “vêem” (eles veem), “crêem” (eles creem), “lêem” (eles leem), “dêem” (que eles deem), também em palavras terminadas com “ôo” (voo).

Não esqueça que “têm” (eles têm) continua com acento; e “tem” (ele tem) continua sem acento.

Para quem vai fazer provas ou concursos, é importante ver o edital. Caso nada conste, significa que serão aceitas as duas formas, a velha e a nova, pois a nova passa a ser lei apenas em 2012.

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http://www.ciberduvidas.com/controversias.php?rid=2151
 
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http://aeiou.visao.pt/guia-pratico-para-perceber-o-acordo-ortografico=f543282
 
 
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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A GRANDE MARCHA FOI HÁ 75 ANOS

Mao Tse-tung na Grande Marcha

Foi em 20 de Outubro de 1935 que terminou aquela que viria a ser conhecida pela "Grande Marcha". Cerca de 8 000 sobreviventes do exército comunista de Mao Tse-Tung que haviam atravessado a China, a pé, numa espantosa odisseia humana, encontram refúgio numa província do noroeste, após um ano e quatro dias de retirada perante o exército de Tchang Kai-Chec. Será este núcleo de resistentes que manterá viva a esperança de milhões de chineses e levará Mao Tse-Tung ao controlo total do país, em 1949. Que só terminará em 1976, com a morte de Mao. Virá depois a tomada do poder pela nova política que transformou a China dos excessos revolucionários no país de desenfreada exploração do trabalho humano dos nossos dias.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Uirapuru - Nilo Amaro e Seus Cantores de Ébano

De vez em quando gosto de ouvir este canto magnífico. Mais uma vez...